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A tentar acompanhar tantos erros políticos...

Domingo, 05.11.17

 

 

É tão difícil acompanhar tantos erros políticos no país e na Europa, que nem dá para acompanhar o que se está a passar na América. Parece que as coisas também estão a fervilhar de erros por lá. Já para não falar nos riscos que todos corremos, entregues à loucura das lideranças mundiais...

 

É também com o coração nas mãos que olho para a nossa vizinha Espanha. Aí os erros políticos acumulam-se diariamente. Depois da violência policial da Guardia Civil sobre manifestantes em Barcelona, a prisão de membros do governo catalão.

E ainda pretendem levar por diante as eleições na região. A campanha eleitoral já deve ter começado, porque vi e ouvi um discurso muito estranho de Albert Rivera na TVE sobre "liberdade", imagine-se! O jovem político não percebe nada de democracia nem de psicologia social. Falar de liberdade com membros do governo presos? Iniciar uma campanha política para eleições sem as mínimas condições democráticas para o efeito? Não esperava esta alienação cultural num jovem político.

Os catalães têm de preencher este vazio na sua representação política, com políticos que não tenham equívocos ideológicos na cabeça nem sejam formatados pela lógica do poder. A lógica do poder não tem a mais elementar empatia e solidariedade humana, neste caso com os presos e com a sua comunidade ansiosa e dividida. Políticos que em vez de virem provocar esta comunidade em stress e insegurança, consigam ajudá-la a lidar com as divergências internas, trocar ideias, escolher objectivos e definir prioridades. 

 

Os catalães merecem melhores lideranças políticas. E para isso precisam de tempo e de um ambiente favorável, restaurando a democracia e a autonomia. Não vejo outro caminho.

Madrid restaurava a sua imagem internacional, mas também doméstica. Arrepiar caminho só pode ser feito pelo que detém o poder. Não perdia nada, antes pelo contrário, evitava uma instabilidade social que se reflecte na economia, e este é o argumento a que o poder é mais sensível, o financeiro.

E não esquecer a monarquia, que em vez de unir, dividiu mais profundamente, aliando-se à lógica do poder do governo de Rajoy. Até quando pensa a monarquia conseguir manter-se se não servir a unidade de Espanha? Unidade que tem de garantir respeito pelas diversas comunidades e incluir todos os cidadãos.

 

Entretanto a UE aliou-se à lógica justiceira espanhola, sancionando a prisão de membros de um governo eleito democraticamente numa região autónoma. A UE que nos vem interpelar nas redes sociais que é democrática, que quer ouvir os cidadãos europeus, etc. e tal.

Ficamos todos a saber que a UE não é regenerável por dentro, que as suas instituições são obsoletas e opacas, que não servem a democracia ou a justiça.

Justiça é a possibilidade de resolver conflitos sociais, não é agravá-los.

Justiça é a possibilidade civilizada de manter o equilíbrio social, não é desequilibrá-lo.

E a democracia é a forma de organização social o mais equilibrada possível.

 

Esta loucura visível em muitas lideranças políticas tem de fazer "pause" antes de fazer mais estragos, dar tempo e espaço para reflectir, para restaurar o equilíbrio perdido.

 

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 12:19

Votar em equipas e projectos é mais favorável ao sistema democrático

Domingo, 27.11.16

 

 

 

A consciência de si próprio como membro de uma comunidade, e a responsabilidade partilhada, são capacidades próprias da maturidade.

Uma pessoa autónoma participa e colabora em projectos em que acredita sem a expectativa da aprovação social. Ao aceitar os seus trunfos e as suas fragilidades adquiriu a confiança em si própria para agir de forma sensata. E também por isso não é influenciável, pois observa, informa-se e analisa cada situação de forma objectiva.

Arno Gruen aponta para uma pequena parte da população geral com estas características. A maior fatia da população geral revela uma tendência para o conformismo, podendo inclinar-se para o lado da autonomia, isto é, para seguir exemplos favoráveis à lógica ganha-ganha e à cultura da colaboração e da partilha, ou para o lado da psicopatia, isto é, para seguir os "falsos deuses" e a sua lógica do ganha-perde, ou seja, a cultura da competição, da megalomania e do desprezo pelos mais frágeis, tratados como perdedores.

 

Voltando às eleições americanas, a minha perplexidade mantém-se. Metade dos eleitores americanos entregou o poder de muitas decisões determinantes para o seu futuro, a uma pessoa que verbalizou o que quis sem filtros de qualquer espécie: respeito pelas pessoas, respeito pela democracia, respeito pela própria história da América, pela sua cultura, pelas suas diversas comunidades.

O perfil de muitos políticos e pessoas influentes tende a ser, como Arno Gruen analisou, auto-centrado, eficaz na obtenção do poder, sem empatia e sem escrúpulos. Alguém que já identificaram assim à primeira vista?

Já repararam no risco que corremos quando estas pessoas têm carta branca nas grandes decisões colectivas?


É por isso que, a meu ver, o sistema democrático terá de se aperfeiçoar e proteger, definindo novas regras. E uma delas terá a ver necessariamente com a exigência da apresentação, aos potenciais eleitores, de uma equipa e de um projecto.

O projecto terá de funcionar como um contrato entre a equipa e os eleitores e não, como temos observado, apenas marketing.

 

Um exemplo de uma equipa que tenho observado é a da solução governativa em Portugal: embora o governo seja de um partido, é apoiado na Assembleia por dois outros partidos. Trata-se, pois, da gestão política de uma equipa.

Uma gestão política com esta definição exige negociação, o que nos dá garantias de um equilíbrio e controle de excessos, mas enfrenta alguns desafios. Um deles, é a mania da medição da popularidade relativa de cada partido através das sondagens.

É claro que se a responsabilidade fosse avaliada pelas sondagens, o PCP teria aumentado 2 pontos, o BE 1 ponto e o PS teria ido buscar os seus pontos apenas ao PSD, ao CDS e à abstenção.

Só um à parte sobre esta sondagem: é interessante verificar que a prestação responsável do deputado do PAN foi reconhecida pelos inquiridos.

 

 

Post publicado n' A Vida na Terra.

 

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 11:03

Eleições presidenciais 2016: como distinguir a personagem da pessoa real?

Terça-feira, 12.01.16

Aqui iniciei a minha análise do perfil de Presidente que considerei ser o mais adequado à nossa situação actual.

Aqui revelei a minha alegria (e um certo alívio) com a candidatura de Marcelo Rebelo de Sousa.

E aqui comecei a analisar a campanha eleitoral, os debates na televisão, o comportamento dos candidatos.

 

E agora vamos então à forma de distinguir uma personagem de uma pessoa real:

1. A interacção: quando estamos perante uma personagem não nos sentimos à vontade, sente-se um espaço entre nós, uma barreira invisível, o olhar não é caloroso, acolhedor, não nos fita nem nos envolve, não há empatia nem proximidade; quando estamos perante uma pessoa real sentimos-nos imediatamente à vontade, o olhar sorri e acolhe-nos, há uma empatia e proximidade, identificamo-la como um de nós, como um velho amigo que voltamos a encontrar.

2. A mensagem: quando ouvimos a mensagem de uma personagem não há ressonância com a nossa vida, com o nosso quotidiano, não é para nós que está a falar, não há verdadeira comunicação, é como um actor num palco; quando ouvimos uma pessoa real falar sentimos uma ressonância com a nossa vida do dia a dia, fala connosco, há empatia e comunicação.

3. Os apoiantes: o grupo de suporte e de referância diz muito de uma personagem pois, tratando-se a personagem de uma construção, é o grupo que na realidade exerce influência e poder, a personagem molda-se a essa influência e poder, como um actor se molda ao guião, não há pensamento próprio; a pessoa real pode ter apoiantes mas não são eles que definem o seu pensamento, pode ouvi-los e trocar ideias, mas é autónomo.

 

E pronto, espero ter descrito as principais diferenças entre os candidatos. Não se trata, portanto, de ser de esquerda ou de direita, mas sim de perfil e de papel.

A escolha será entre uma personagem e uma pessoa real, qual é que preferem?

A escolha será entre a ambição de mais poder e o equilíbrio de poderes.

A escolha será entre o poder dos bastidores e o poder do seu exercício.

 

 

 

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 12:51

O mote musical para a nossa situação actual

Segunda-feira, 29.07.13

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 23:48

A criança faz uma birra, o adolescente bate com a porta, o adulto negoceia de forma responsável

Quarta-feira, 10.04.13

 

Os egos dos políticos interferem no seu comportamento e nas suas decisões, situando-se ao nível da maturidade do adolescente: querem agradar aos poderosos e detentores do poder financeiro, ao grupo de referência, ao grupo dos apoiantes, etc, etc. Vivem na azáfama de construir uma carreira política e para isso dependem de favores e de expectativas de um futuro numa qualquer empresa pública ou PPP ou câmara municipal ou fundação, etc. etc.

É por isso que são os actores ideiais do teatro político pois limitam-se a seguir um guião escrito previamente pelos interesses dos grupos financeiros e económicos, encenado diariamente nas televisões. Um adulto autónomo e responsável questionaria o guião, tentaria adaptá-lo às circunstncias actuais e ao benefício dos cidadãos como um todo, consideraria o grande plano.

 

Hipoteticamente, um político com a maturidade de um adulto portanto não dependente da aprovação social, seria capaz, além de se adaptar às circunstâncias da realidade, de se antecipar às situações evitando assim colocar o país em risco. 

 

Vejam 2 exemplos de incapacidade de negociar e de chegar a compromissos de forma responsável, tal como um adulto faria se estivesse no seu lugar:

- o discurso do PM em que responsabiliza o Tribunal Constitucional por um buraco orçamental (na verdade, aquele OE 2013 é apenas uma insistência na mesma tecla);

- a entrevista na Sic e o discurso do líder da oposição, em que iniciou uma birra infantil ao insistir em eleições antecipadas, quando não há condições para tal (na verdade, os contribuintes do público e do privado, os que ficaram sem emprego, os que tiveram de emigrar e os pensionistas não lhe perdoariam tal desvario, pois são eles que estão a pagar o preço das irresponsabilidades de governos socialistas e social-democratas).

 

 

Outro exemplo do ego próprio dos políticos é a reacção de amor-ódio que Margareth Thatcher despertou nos britânicos, dividindo o país ao meio na altura da sua saída de cena.

Como este texto de opinião refere, não é de bom tom (nem de humanidade mais elementar) tecer considerações negativas quando alguém parte mas, tal como os autores referem de forma muito perspicaz, a própria gostaria de saber que despertou emoções fortes nos seus conterrêneos, pois não há nada pior para um ego de um político do que ser ignorado ou esquecido.

E uma coisa é certa, como eles bem destacam, Margaret Thatcher mudou o Reino Unido muito mais do que se julga, em termos financeiros, económicos e sociais, desmantelando o sector público e mudando o centro da economia para a City of London, e influenciou muitas outras economias e equilíbrios entre economias.

E mais ainda, essa profunda transformação revelou-se irreversível, levando os autores a apelidá-la de rainha-mãe da austeridade. Destaco aqui alguns excertos:

 

(...)

Mrs. Thatcher transformed the character of British politics by heading a democratically elected Parliamentary government that permitted financial planners to carve up the public domain with popular consent. Like her actor contemporary Ronald Reagan, she narrated an appealing cover story that promised to help the economy recover. The reality, of course, was to raise Britain’s cost of living and doing business. But this zero-sum game turned the economy’s loss into a vast windfall for the Conservative Party’s constituency in Britain’s banking sector.

(...)

Attacking rent-seeking in government, she opened the floodgates to economic rent-seeking in its classical sense: land rent in real estate (with debt-inflated “capital” gains) to make British property so high-priced that employees who work in London must now live outside it, taking highly expensive privatized railroads to work. Privatization also created vast new opportunities for monopoly rent for privatized public utilities, along with predatory financial takings by increasingly predatory banking.

(...)

By time Mrs. Thatcher became Prime Minister in 1979, Britain had made over a century of enormous investment in public infrastructure. Financial managers eyed this commanding height as a set of potential monopolies to be turned into cash cows to enrich high finance. Mrs. Thatcher became the cheerleader for what became the greatest giveaway of the century as the City of London’s gain became the industrial economy’s loss. Britain’s lords of finance became the equivalent of America’s great railroad land barons of the 19th century, the ruling elite to preside over today’s descent into neoliberal austerity.

Her tenure as Prime Minister seemed to reprise Peter Seller’s role in Being There. She made good television precisely because her philosophy was stitched together in a sequence of sound bites that flattened complex social and economic relationships into a banal personal psychodrama. Mrs. Thatcher’s ability to sweep the broad financial and economic polarization and financial “free lunch” behind a curtain enabled her to distract attention from the consequences of what Harold Macmillan characterized as “selling off the family silver.” It was as if the economy was a middle-class grocer’s family trying to balance its checkbook along the lines of what its banker insisted were necessary in the face of wages being squeezed by rising prices for basic needs.

The ground for Mrs. Thatcher’s rule was prepared by the fact that England’s economy was as much a mess as the rest of the world by the time she took office. The 1979 Winter of Discontent saw a perfect storm unfold. Unable to restrain Arthur Scargill and other and other labor grandstanders, the British Labour Party felt little need to wait for Britain’s share of North Sea oil to come on stream. That windfall would subsidize a decade of dismantling what was left of British industry. Oil states do not need to be efficient. They do not need industry, or even employment.

(...)

The new twist was that the class war aimed at labor in its role of consumer and debtor, not as employee. England’s domestic industry took one beating after another as factories closed their doors throughout the country (with the most successful becoming gentrified real estate developments).

The Iron Lady was convinced she was rebuilding England’s economy, while in reality it was only getting richer from London’s outlaw banks.

Throughout the world, the damage wrought by this financialized economy has been immense. By “liberating” national money from the constraints of taxing authorities, the Middle East stopped much of its projects for industrial development. After 1990 the Soviet bloc was deindustrialized to become an oil, gas and mining economy. And for Britain, trillions of dollars in global tax revenues that could have been used for industrial and social development were routed though London, where the UK has lived off the fees from this free-for-all. So despite Mrs. Thatcher’s admiration for Milton Friedman, famous for claiming that There Is No Such Thing As A Free Lunch, she made Britain’s economy all about obtaining a free lunch – eaten by the world’s financial managers who flocked to its shores.

How much did Lady Thatcher come to understand about a financial sector of which she never deliberately favored? She never expressed regret about how her policies paved the way for New Labour to take the next giant step in empowering the City of London’s financial complex that has un-policed the banks to catalyze one financial crash after the next, hollowing out Britain’s economy in the process.

When Mrs. Thatcher took power, 1 in 7 of the England’s children lived in poverty. By the end of her reforms that number had risen to 1 in 3. She polarized the country in a ‘divide & conquer’ strategy that foreshadowed that of Ronald Reagan and more recent American politicians such as Wisconsin Governor Scott Walker. The effect of her policy was to foreclose on the economic mobility into the middle class that ironically she believed her policies were promoting.

(...)

But finance always has lived in the short run, and nowhere in the world is banking more short-term than in Britain. Nobody better exemplified this narrow-minded perspective than Lady Thatcher. Her simplistic rhetoric helped inspire an inordinate share of simpletons conflating supposed common sense with wisdom.

Not altogether simple, perhaps, but simply opportunistic. As the uncredited patron saint of New Labour, Mrs. Thatcher became the intellectual force inspiring her successor and emulator Tony Blair to complete the transformation of British electoral politics to mobilize popular consent to permit the financial sector to privatize and carve up Britain’s public infrastructure into a set of monopolies. In so doing, the United Kingdom’s was transformed from a real economy of production to one that scavenged the world for rents through its offshore banks. In the end, not only was great damage inflicted on England, but on the entire world as capital fled developing countries for safe harbors in London’s banks. Meanwhile, governments throughout the world today are declaring “We’re broke,” as their oligarchs grow ever more rich.

 

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 17:25

O poder da palavra

Sexta-feira, 29.03.13

 

A palavra. Tem em si mesma o poder de seduzir, programar, iludir, manipular, habituar, hipnotizar. Crescemos a ouvir histórias, definições, normas, regras, sugestões, ordens, classificações. O banho da educação é cultural e fomos nele mergulhados até submergir. É difícil resistir a essa influência, forma-nos para sempre.

Mesmo que a nossa capacidade de observação infantil nos mostre as incoerências e as incongruências de algumas destas convenções inquestionadas culturalmente, tudo à nossa volta contraria essa observação individual. Mas se queremos viver de forma adaptada e integrada, acabamos por ceder a essa pressão cultural. Acabamos a valorizar a opinião generalizada, convencional, a norma, em vez da nossa própria observação. A terrível dependência da aprovação social.

 

O poder da palavra, pois. Temos de voltar a esse breve período anterior à programação para nos resgatarmos (identidade) e à nossa capacidade de observação (realidade). Há várias formas de o conseguir: calar a vozinha que nos acompanha a toda a hora com tarefas que a contrariam, ficar em silêncio e identificar todos os sons nocturnos, caminhar entre árvores procurando fazer o mínimo ruído, etc. Um exercício interessante é ligar a televisão e observar as personagens sem som, sobretudo os políticos e os comentadores: observar as expressões faciais, os movimentos na cadeira, o nervososmo nas pálpebras a tremer, os gestos com as mãos, etc. Evitar as rotinas diárias, efectuá-las numa ordem diferente ou de forma pouco habitual. Sair do carril. Ver de outra perspectiva.

 

Vantagens de recuperar a capacidade de observação individual e confrontá-la com a geral, a norma: agir de forma inteligente, alerta e consequente, em vez de ser suepreendido pelos acontecimentos. Antecipar-se aos acontecimentos. Em vez de continuar a reagir a estímulos externos, agir em função da informação filtrada e processada por si próprio. Conectar-se com as pessoas e as comunidades que o podem esclarecer sobre algum assunto. Pedir ajuda às pessoas e às comunidades certas. Obter melhores resultados. Preparar o futuro.

 

A palavra, as histórias, as versões dos acontecimentos, só distraem do essencial. Por trás da palavra está o manipulador, quem sabe o que quer e como o pode conseguir: o poder. Quem a utiliza sem critério é isso que pretende: vender uma ideia, entreter, distrair, iludir, ou mesmo enganar claramente.

 

E não é só a política e os interesses que serve. É a ciência quando se tenta susbstituir à religião ou servir interesses políticos e outros, servidos pela política. É a religião também, seja qual for, sempre que se serve da palavra como instrumento do poder. E a comunicação social, que serve a política e os interessas que a política serve, e a ciência como nova religião e a religião quando se transforma em política.

Exemplo: tem-se colocado a questão em termos de se acreditar em Deus ou não acreditar, em se ser crente ou ateu. Quem se baseia na sua própria capacidade de observação percebe desde logo que esta é uma falsa questão, e uma forma muito rudimentar de a colocar. Não há separações entre crentes e ateus. O que os separa é a palavra, as histórias, as diferentes versões dos acontecimentos. Todos estamos ligados a todos e a tudo de uma forma que não sabemos descrever. Só a sede de poder sobre outros pode entrar na fórmula que separa pessoas, comunidades, perspectivas.

 

Cristo Operário é um pequeno monumento construído nos anos 60, num local praticamente abandonado do interior da Beira Baixa. Na perspectiva mais benigna, esta representação de Cristo como um operário entre operários, foi construído numa intenção de valorizar um trabalho simples e de dignificar uma classe social, uma parte da comunidade. Podia ter ficado esquecido no tempo, podia estar agora em ruínas, mas foi reabilitado culturalmente pela comunidade que ficou por ali. Quando penso em Cristo é aquele monumento que vejo, entre cedros e pinheiros. O que fica não é a palavra, mas a acção, o gesto, a decisão, a responsabilidade.

 

No filme Phenomenon, são as árvores ao vento que sossegam o nosso herói perturbado, com a mente sobrecarregada de perguntas por responder, de curiosidade por todos os mistérios, de novas ideias:

 

 

Que esta Páscoa nos venha recuperar a capacidade de observação original, anterior à palavra, e a percepção de uma realidade que não precisa de se afirmar para se conhecer e sentir, a clara sensação de estarmos ligados a todos e a tudo.

 

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 19:56

Ensaios de autonomia para universitários

Quarta-feira, 28.11.12

 

Há áreas fundamentais no país que estão condicionadas por obstáculos culturais, e já nem me refiro à gestão política e económica, refiro-me à educação e ao acesso à vida activa. O papel fundamental das universidades e das empresas, por exemplo. 

Em vez de se promover a autonomia e a capacidade de pensar por si próprio, de criar novas soluções, promoveu-se a formatação acrítica e a adaptação à cultura dominante. Agora verifica-se que esta forma de organização tem os dias contados, não pode sobreviver muito tempo, ainda que à custa do contribuinte. Ou se reformula ou morre a prazo.

 

Nesta reportagem da Sic, no programa Momentos de Mudança, vemos Miguel Gonçalves, em diversas palestras,  passar uma mensagem carregada de emoções fortes a universitários um pouco apáticos. O entusiasmo pode ser contagioso mas também pode assustar, e muitos destes jovens foram formatados culturalmente para um lugar à sua medida. O essencial da mensagem é:

- a melhor altura para preparar a actividade é na universidade;

- aprender a preparar a concepção e apresentação do seu projecto é fundamental.

As apresentações individuais ou em grupo preparam-se em eventos próprios que se verificaram produtivos: So you think you can pitch. É o teste a uma ideia, a um projecto concreto. O que podem resolver a potenciais clientes, que soluções.

 

Um professor de Stanford dá-lhes o mote: o foco deve estar nos alunos, não nos professores. São os alunos que criam riqueza. As universidades devem estar em estreita colaboração com as empresas. Miguel Gonçalves tenta transpor esta ideia fundamental para o país. Quem pode conseguir esse feito são os universitários, a mensagem acabará por passar.

 

Aqui o essencial a reter, pelo menos para mim, é acordar a vitalidade adormecida, responsabilizar-se por si próprio, ninguém lhe vai dar instruções ou decidir qual o percurso melhor para si. Ensaiar o seu lugar numa comunidade, prestar um serviço, criar novas soluções.

 

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 09:50

A autonomia do adulto

Terça-feira, 22.05.12

 

Inspirada no post A estranha leveza de ser libertário, de Ricardo Lima, n' O Insurgente, volto aqui para desenvolver um pouco o tema da autonomia do adulto.

 

A autonomia do adulto já foi definida por Arno Gruen em A Loucura da Normalidade, A Traição do Eu e Falsos Deuses.

Também Alberoni desenvolveu o tema.

Uma coisa essencial, portanto. E cada vez mais essencial numa época em que é tão desvalorizada.

 

Há uns tempos tinha colocado a navegar num rio, esta relação dos termos autonomia individual-dependência grupal através do filme The Fontainhead. Porque este tema não se esgota e ainda acende debates, por ele voltei a esse rio que ainda chama por mim.

 

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 16:49

As mulheres hoje: quem é afinal esta "happy woman"?

Terça-feira, 29.11.11

 

Quando era miúda a minha mãe assinava a Marie France. Nos anos 70 achei piada à refrescante Cláudia brasileira, sobretudo pela roupa de Verão e pelas sugestões sobre tratamentos da pele, cabelos e maquilhagem (interesses naturais de uma adolescente). Nos anos 80 coleccionei a Decoração Internacional, dava-me uma sensação de estabilidade talvez, os espaços preenchidos ou deixados vazios estrategicamente. Nos anos 90 foi a vez da Grande Reportagem - a única, a original, não a sucedânea -, a Première francesa, e algumas especializadas em gestão e marketing, sobretudo as vocacionadas para as novas empresárias que começaram a florescer por cá nessa década. A partir dos anos 0 de um novo século, foi a variedade que passou a contar: uma miscelânea de interesses desde a roupa, as casas e jardins, gestão, marketing, reportagens sociológicas, e o inevitável cinema.

Este mês de Novembro foi a vez de uma Happy Woman, para onde de vez em quando lançava um olhar curioso mas que me soava a um conceito provocador e revelador dos tempos actuais.

 

À primeira vista esta interpretação fiel dos tempos actuais pode parecer traduzir uma perspectiva de felicidade instantânea, como se a pudéssemos encomendar, como se adquirir alguns produtos ou consumir alguns serviços nos pudesse tornar mais felizes, ou melhor, como se a privação desses produtos e serviços nos tirasse alguma felicidade. No entanto, sejamos justos: depois de adquirida alguma liberdade de movimentos, é muito difícil voltar à confinação de um espaço limitado, depois de adquirida alguma qualidade de vida é terrível abdicar dela.

Mas a revista revelou-se muito mais do que esta minha ideia inicial:

Dá para identificar o seu público-alvo, para já o miolo de uma fatia provavelmente maior: mulheres entre os 25 e 45, bem sucedidas (entenda-se pelas regras de sucesso actuais: status financeiro médio e médio alto). Uma fatia mais abrangente pode alargar-se perfeitamente a jovens estudantes a partir dos 15 e profissionais adultas com mais de 45 (não resisti...)

A revista é competente, trata dos assuntos essenciais do dia a dia destas mulheres, não apenas a imagem, o que vestir e como, mas o seu bem-estar geral: trabalho (aqui entendido como carreira), os relacionamentos afectivos (aqui abrangendo todas as possibilidades, como um menu... ups!, já fiz uma associação estranha aqui...), a saúde (esta área está particularmente bem concebida com informações úteis sobre as especialidades médicas a que se pode recorrer, como distinguir os serviços de qualidade, refiro-me a esta específica de Novembro), o lazer e o descanso das guerreiras (hotéis, spas, restaurantes), sim, porque o miolo desta fatia social é composto por autênticas guerreiras que se movem num mundo muito competitivo, a nível profissional e a nível relacional.

 

Na era do Facebook, dos “like” e “dislike”, das trocas de informação entre amigos e fãs, uma revista para ser bem sucedida tem de assegurar informação:

- de qualidade, correcta e actualizada;

- organizada, com uma clara distinção entre o que é importante e o que é irrelevante;

- original, com uma perspectiva única e interessante;

- e oportuna, respondendo às expectativas do seu público-alvo.

Em todos estes requisitos, a Happy Woman corresponde de forma competente. A informação sobrepõe-se à publicidade, tornando-a ainda mais eficaz: para cada peça é dada a informação relativa ao preço de loja, o que é fundamental na era da internet e das aquisições à distância de um clic. Desta forma, pode-se elaborar uma lista personalizada e organizar as compras por prioridades. São dadas ainda sugestões sobre que tipo de roupa escolher de acordo com a silhueta de cada uma. A informação privilegia a escolha de estilos diversos, e neste item a revista é original: para cada estilo há uma imensidade de peças, como um grande bazar, sem ter de sair de casa. É também nesta característica da informação que a revista traduz a sociedade actual, virada essencialmente para o social, a exposição, o público, em que as personagens mais influentes em termos de estilo, atitude e comportamentos são provenientes do espectáculo: cinema, música, design de roupa, etc. Hoje uma actriz ou cantora conhecida tem seguidores e pode influenciar escolhas importantes, mesmo a nível político (lembram-se da eleição de Obama?)

 

Mas quem é afinal a “happy woman”?

Começaria pela comunicação: franca, directa, sem preconceitos, aberta a novas experiências, muito prática, algum bom senso e muita ousadia. Preocupada com a imagem, mas sobretudo com o sucesso na carreira e nos relacionamentos. Exige muito de si própria, é competente no que faz e quer ser reconhecida por isso, e exige competência dos outros também. Nessa perspectiva, é muito ambiciosa: tudo em um, conciliar tudo e tudo funcionar.

É exigente com a qualidade dos produtos e dos serviços, recorre a muitos deles e quer que correspondam às suas expectativas, isto é, que funcionem. Subentende-se que come mais fora do que em casa ou que, se isso acontece, traz a comida já confeccionada ou pré-cozinhada. Provavelmente também na roupa recorre à lavandaria ou contrata esse serviço em casa.

É muito autónoma relativamente às decisões que toma, às suas escolhas, mas precisa da aprovação social, tem sede de informação sobre o que é in, o bom look, mas também os lugares a ir e as pessoas a conhecer. No mundo onde se move isso é avaliado e pode determinar a integração no grupo em que pretende inserir-se. É essencialmente urbana e sofisticada ou, pelo menos, de uma simplicidade sofisticada.

Em termos da saúde e dos cuidados consigo própria, ainda não estamos na preocupação propriamente dita da manutenção da juventude (congelar a idade), pois a curva etária dessa preocupação, na sua forma obsessiva, parece estar agora a deslocar-se para a faixa dos 45 aos 65, e a “happy woman” ainda não se dirige preferencialmente a essas mulheres (de novo não resisti...)

 

O mundo onde se move esta “happy woman” é um mundo de imensos desafios e obstáculos. Daí a minha admiração pela sua capacidade de resistência: ao stress, em primeiro lugar, ao desgaste emocional, à competição desleal. É, de facto, notável.

O que mais me agrada é a ausência de preconceitos, essa largueza mental. Pode parecer ameaçador para alguns ou até decadente para outros, mas a abertura a novas experiências pode ter o seu lado rebelde e refrescante, desde que se tenha consciência da realidade envolvente. E a “happy woman” parece ter os olhos bem abertos.

 

Irei continuar esta reflexão sobre as mulheres hoje, no mundo de hoje, e sobre esta “happy woman” que o interpreta na perfeição.

 

 

 

Dois filmes a rever que identificam o início do percurso desta “happy woman”, embora isso só seja perceptível a olhares mais atentos: um, Uma Mulher de Sucesso, de Mike Nichols, com Melanie Griffith, Harrison Ford e Sigourney Weaver. Aqui percebe-se que hoje informação é poder, é influência, é um trunfo profissional eficaz; outro, Guerra, S.A., de Joshua Seftel, com John Cusack, Marisa Tomei e Hilary Duff, antecipa um mundo caótico que está mais perto de nós do que julgamos. Reparem no papel da cantora, Yonica Babyyeah, e da sua adaptação e sobrevivência num mundo caótico em desintegração. Há sempre o outro lado do espectáculo. Mas o seu poder, enquanto influência de estilo, atitude e comportamentos, independentemente da armadilha que implica para a própria, é enorme.

 

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 18:08

A família como espaço de liberdade

Segunda-feira, 24.10.11

 

Associamos a família à ideia de refúgio e protecção (pais), apoio afectivo e elos fiáveis (casal), projecção no futuro (filhos). Mas raramente nos ocorreria associá-la à ideia de liberdade.

Algum dia leram o livro de George Orwell, 1984? Ou viram o filme? É mais um desafio que vos deixo, caros Viajantes.

No livro e no filme está lá essa ideia fundamental: o espaço de liberdade individual começa no espaço exacto dos afectos, dos laços afectivos. É aí que ele deixa de estar completamente só, vulnerável, exposto à domesticação social. 

Este primeiro espaço afectivo pode ser alguém significativo que cuidou dele, ou apenas a memória de alguém que o tenha olhado com carinho, ou mesmo ainda a memória remota de canções infantis. Essa é a base possível para poder reconhecer num outro alguém a possibilidade de construção de laços fiáveis, espaço onde mais ninguém pode entrar, esse mundo invasivo e manipulador.

Os tempos que vivemos actualmente, no país e na Europa, não são assim tão distantes desse lugar opressivo do 1984 de Orwell, estamos lá perto. Daí a importância da família-espaço de liberdade, dos afectos-espaço de liberdade, da amizade-espaço de liberdade, do respeito por si próprio e pelos outros-espaço de liberdade.  

 


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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 19:58








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